"Queria abrir o tema 'transe', ou seja a instabilidade das consciências. É um momento de crise, é a consciência do barravento."
Filme dirigido por Glauber Rocha em 1967.

Mar bravio que me envolve
neste doce continente
A este esquecimento
posso doar a minha triste voz
matina
Mais triste que a revolta
Muito mais.
Vomito na carne o ácido dólar
Avançando nas praças
Entre ninhos
sujos com sus ojos de passaros cegos
Vejo que de sangue se desenha o Atlântico
sob uma constante
ameaça de metais ajato
Guerras e guerras nos países
exteriores.
Posso acrescentar que na lua
um astronauta se deu por achado;
Todas as piadas são possíveis
na tragédia de cada dia.
Eu,por exemplo,
me dou ao vão exercício da poesia.
Quando a beleza é superada pela realidade,
Quando perdemos nossa pureza
nesse jardim de mares tropicais
Quando no meio de tantos anêmicos
Respiramos o mesmo bafo de verme
em tantos póros animais
Ou quando fugimos das ruas
e dentro da nossa casa
A miséria acompanha em suas coisas mais fatais,
como a comida,o livro,o disco,a roupa,o prato,
a pele,o fígado e a raiva
Rebentando a garganta em pânico
E um esquecimento de nós inexplicável
Sentimos finalmente que a morte é que converge,
mesmo com forma de vida,
Agressiva.
(...)
"Não é mais possível esta festa de medalhas, este feliz aparato de glórias, esta esperança dourada nos planaltos. Não é mais possível esta festa de bandeiras com guerra e Cristo na mesma posição! Assim não é possível a impotência da fé, a ingenuidade da fé.
Somos infinita, eternamente filhos das trevas, da inquisição e da conversão! E somos infinita e eternamente filhos do medo, da sangria no corpo do nosso irmão!
E não assumimos a nossa violência, não assumimos as nossas idéias, como o ódio dos bárbaros adormecidos que somos. Não assumimos o nosso passado, tolo, raquítico passado, de preguiças e de preces. Uma paisagem, um som sobre almas indolentes. Essas indolentes raças da servidão a Deus e aos senhores. Uma passiva fraqueza típica dos indolentes.
Não é possível acreditar que tudo isso seja verdade! Até quando suportaremos? Até quando além da fé e da esperança suportaremos? Até quando, além da paciência, do amor suportaremos? Até quando além da inconsciência do medo, além da nossa infância e da nossa adolescência suportaremos? "